Almas gêmeas: obra em metal e tesselas de mármore |

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Arte contemporânea e o mosaico brasileiro: ponto de virada
De há muito meu espírito se inflamava de indagações sobre o sentido das artes contemporâneas,
suas contradições, experiências, seus êxitos, fracassos, seus críticos e seus entusiastas.
Tinha absoluta certeza de que o caminho era este, mas vacilava, observava e sobretudo estudava, lendo ensaios, críticas,
e me aborrecia com muita maionese nessa área que só aumentava o colesterol das minhas leituras.
Realizei algumas experiências daqui, outras dali, às vezes com madeira, outras vezes com
metal, esculturas, objetos, enfim, construí peças sobre as quais pudesse fazer reflexões e alcançar um caminho novo.
No final de 2004, ao realizar um curso de papel maché e de gesso, realizei algumas peças
moldando gesso sobre um trabalho de madeira atassalhada, que logo me proporcionou um resultado muito harmonioso. Mas achei
que não bastava e o associei aos mosaicos, não às tesselas comuns, multicoloridas, mas às tesselas unicamente de branco (mármore
capixaba) cortadas com torquês de forma a expor o quartzo de seu interior, formando uma espécie de placas de mármores apicoados.
Mélange: gesso e tesselas de mármore branco |

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Ainda não tenho certeza se o que fiz foi exatamente um mosaico, ou um simples arranjo
de tesselas idênticas, da mesma cor branca, mas o certo é que, com ajuda de massa plástica, adicionei o trabalho às peças
de gesso que fizera anteriormente.
Deu um resultado apreciável e tratei de pendurar as peças na parede de meu ateliê em meio
a dezenas de outras obras
musivas, de toda sorte, que venho construindo
ao longo dos anos.
A presença dessas peças e os comentários constantes das visitas ao ateliê acabaram despertando
minha atenção para o resultado obtido com aquelas peças, mas a observação mais pertinente que detonou uma explosão de novas
experiências e conseqüências estaria por vir. Foi mais ou menos em março ou abril, no período em que a mosaicista e companheira
Cida Carvalho – uma paranaense residente em Brasília, para onde trouxe a colaboração de sua atividade musiva irrefreável
– teve a grande ousadia de promover um curso na cidade ministrado pela artista austríaca Edda Mally, uma senhora septuagenária,
de grande vivência nas artes contemporâneas, com destaque na realização de mosaicos.
Em verdade, não participei do curso, estava de caixa baixa, de interesse baixo e enfrentando
problemas de saúde na família. Mas dei o apoio possível, participando da recepção
à Professora em sua chegada no aeroporto, nos passeios pelos monumento da cidade, e também numa viagem com ela a Cristalina,
a 100 quilômetros de Brasília, onde pôde admirar e adquirir cristais de rocha e outras pedras semi-preciosas.
Dois dias depois, Cida Carvalho teve a grande gentileza e iniciativa de trazê-la num final
de tarde até minha casa-ateliê na Avenida W-3 sul. Fiquei muito comovido com a visita e pudemos confraternizar com todo o
grupo de alunos em torno de uma mesa e de um lanche próprio para a ocasião.
Melange 2 |

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Estudo misturando uma placa de gesso a uma ala de mosaico com mármores brancos |
Ao final, Edda decidiu subir ao segundo andar da casa para conhecer melhor os trabalhos
em meu ateliê. Foi passando batida por todas as obras que me envaideciam, a coleção de retratos de Frida Kahlo, um painel
com a figura do artista Athos Bulcão, um mural em homenagem ao Eng. Israel Pinheiro, e
dezenas de outras peças ali colocadas.
Deteve-se, com entusiasmo e perplexidade, diante das pequenas e poucas peças que fiz reunindo
os mármores brancos ao gesso moldado em madeira. E falou sem parar sobre a importância daquilo. Ali sim, disse, estava a marca
de meu nome. Aquele modesto modelo continha a importância do mosaico contemporâneo, de suas possibilidades de unir o mosaico
à arquitetura. Estimulou-me a continuar naquele caminho, a aprofundá-lo, explorá-lo e sobretudo compreendê-lo melhor.

Ah, gente, a partir daí, as coisas começaram a acontecer numa escala absolutamente imprevisível.
Rapidamente, fui entrando em outro mundo, unindo materiais diversos, primeiramente o ferro
aos minérios de ferro – de resto já mencionado e apresentado neste site. Em seguida comecei a conceber esculturas. Logo
uma empresa construtora me pediu uma delas para decorar a entrada de um prédio no setor Sudoeste de Brasília e realizei então
uma peça absolutamente própria, juntando a pedra (o mármore branco, apicoado através do torquês) ao ferro pintado de branco.
Um sucesso.
Enfim, estou feliz e muito entusiasmado com as possibilidades abertas daqui para frente.
Também começo a sentir, a compreender, menos com a razão do que com o coração, o significado da obra contemporânea. E mais
seguro de que há uma nova rota, uma nova estrada aberta para ser percorrida, mais iluminada e tão apaixonante quanto as primeiras
trilhas e atalhos que me trouxeram até aqui.
Gougon
Em Brasília, outubro de 2005
Fotos da Inauguração a 29 de outubro de 2005
Uma grande confraternização na entrega do prédio |

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tesselas de mármores no interior da obra |

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conjugação de pedra e metal agradou moradores |
novos moradores surpreenderam-se com a obra |

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Indagavam pelo nome. Almas gêmeas, respondia |
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